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  • Messi e Piazzolla, anos de solidão

    Messi e Piazzolla, anos de solidão

    Diz-se, na Psicologia – e quem nunca fez terapia que se esparrame no primeiro divã – que nossas maiores dores vêm do fato de não perdoarmos aos próprios erros.

    Pois os argentinos parecem estar em paz consigo.

    Após anos acusando Lionel Messi (“É um espanholzinho!”), menosprezando suas arrancadas e desancando seus poderes – inclusive o de manter a bola colada e subjugada ao pé esquerdo – os vizinhos a quem, com o fel da ironia, chamamos de ‘hermanos’, estão em êxtase.

    Mas sabemos que nem sempre foi assim – e a Imprensa passará os próximos dias lembrando do menino que prometia ser craque, foi para Barcelona muito cedo, aos 13 anos, e bla-bla-bla. Haverá brasileiros roendo-se por dentro e querendo pôr Ronaldinho Gaúcho na conversa (foram companheiros no Barcelona) como se nosso camisa dez também tivesse sua parcela e, quem sabe? até mesmo ensinado alguns dribles àquele pibe, moleque que demorou a dominar a própria timidez enquanto o Gaúcho, bem mais velho, já partia para o ataque e escancarava defesas em boates do mundo inteiro.

    Os argentinos devem ter gasto horas de terapia, salivando destemperados, putos até, com “esse menino que nos virou as costas e não quis defender nossa camisa nem cantar nosso hino”.

    Deve ser a mesma ira que, por tantos anos, despejaram sobre outro gênio – este, ao bandoneón.

    Astor Piazzolla foi maldito na própria terra. “Isso não é nem jamais será tango”, torciam o nariz, tapavam os ouvidos, mudavam o dial do rádio ou cuspiam nos cartazes colados nos muros com o rosto do músico.

    O mundo já havia se rendido àquela mistura de jazz, balanço, swing, uma explosão de erotismo e de vida! – tudo regado a violinos, violoncelos, violões, vibrafones, pianos, harpas – e, claro, ao bandoneón do qual Piazzolla extraía a sua magia.

    Também ele, no entanto, passou maus bocados e sofreu com a falta de reconhecimento por toda a vida – pelo menos em território argentino. Montava suas orquestras (os especialistas acreditam que o quinteto entre os anos 1978/88 tenha sido o mais brilhante), fazia as suas experiências, se embebia de música clássica e aparecia sempre com alguma profana genialidade.

    Years of Solitude, descubro agora, lendo o blog Consultoria do Rock, foi gravada em Milão, em 1974. Havia outra estrela no estúdio: o saxofonista americano Gerry Mulligan – e alguns big bangs aconteceram por aqueles dias. Mulligan, segundo se conta, não sabia ler partitura, o que deixou Piazzolla furioso.

    Passados os problemas, quando cada um sacou o próprio instrumento musical dos respectivos cases, o mundo parou para acompanhar a história acontecer – cada nota se elevando e se impregnando na alma.

    O disco que Piazzolla e Mulligan gravaram (Summit) será ouvido daqui a milhões de anos em Marte, Vega ou onde quer que façamos novas moradas.

    Assim também será com Messi, visto e revisto sem qualquer vergonha de chorar e sorrir enquanto abraça companheiros e consola adversários.

    Com Piazzolla e Messi, os argentinos perdoaram-se todos da bizarrice de ‘la mano de Diós’, essa conta está paga. Estão nas ruas, ainda, saboreando mais uma taça de vinho.

    Puseram fim a 40 anos de dolorosa solidão.